sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Somos Racistas

Espetacular texto do jornalista Leandro Fortes, cujo blog você pode checar [aqui], que faz uma reflexão sobre o quão racista é a sociedade brasileira, principalmente aquela pequena elite que enche a boca pra dizer que é contra cotas, especialmente para negros. É muito difícil reconhecer no próprio discurso o racismo embutido de uma sociedade oligárquica, mas qualquer pessoa pode dar uma desfilada nos campi das universidades públicas e buscar algum negrinho ao redor. Não, aquele que tá servindo coxinha na cantina não conta. Nem aquele que tá limpando a privada do banheiro. Nem aquele que tá pintando a parede. Nem aquele que tá na portaria...


"Enquanto interessava às elites brasileiras que a negrada se esfolasse nos canaviais e, tempos depois, fosse relegada ao elevador de serviço, o conceito de raça era, por assim dizer, claríssimo no Brasil. Tudo que era ruim, cafona, sujo ou desbocado era “coisa de preto”. Nos anos 1970 e 1980, na Bahia, quando eu era menino grande, as mulheres negras só entravam nos clubes sociais de Salvador caso se sujeitassem a usar uniforme de babá. Duvido que isso tenha mudado muito por lá. Na cidade mais negra do país, na faculdade onde me formei, pública e federal, era possível contar a quantidade de estudantes e professores negros na palma de uma única mão.

Pois bem, bastou o governo Lula arriscar-se numa política de ações afirmativas para a high society tupiniquim berrar para o mundo que no Brasil não há racismo, a escrever que não somos racistas. Pior: a dizer que no Brasil, na verdade, não há negros.

Antes de continuar, é preciso dizer que muita gente boa, e de boa fé, acha que cota de negros nas universidades é um equívoco político e uma disfunção de política pública de inserção social. O melhor seria, dizem, que as cotas fossem para pobres de todas as raças. Bom, primeiro vamos combinar o seguinte: isso é uma falácia que os de boa fé replicam baseados num raciocínio perigosamente simplista. Na outra ponta, é um discurso adotado por quem tem vergonha de ter o próprio racismo exposto e colocado em discussão. Ninguém vê isso escrito em lugar nenhum, mas duvido que não tenha ouvido falar – no trabalho, na rua, em casa ou em mesas de bares – da tese do perigo do rebaixamento do nível acadêmico por conta da presença dos negros nos redutos antes destinados quase que exclusivamente aos brancos da classe média para cima – paradoxalmente, os bancos das universidades públicas.

Há duas razões essenciais que me fazem apoiar, sem restrições, as cotas exclusivamente para negros. A primeira delas, e mais simples de ser defendida, é a de que há um resgate histórico, sim, a ser feito em relação aos quatro milhões de negros escravizados no Brasil, entre os séculos XVI e XIX , e seus descendentes. A escravidão gerou um trauma social jamais sequer tocado pelo poder público, até que veio essa decisão, do governo do PT, de lançar mão de ações afirmativas relacionadas à questão racial brasileira – que existe e é seríssima. Essa preocupação tardia das elites e dos “formadores de opinião” (que não formam nada, muito menos opinião) com os pobres, justamente quando são os negros a entrar nas faculdades (e lá estão a tirar boas notas) é mais um traço da boçalidade com a qual os crimes sociais são minimizados pela hipocrisia nativa. Até porque há um outro programa de inserção universitária, o Prouni, que cumpre rigorosamente essa função. O que incomoda a essa gente não é a questão da pobreza, mas da negritude. Há contra os negros brasileiros um preconceito social, econômico, político e estético nunca superado. O sistema de cotas foi a primeira ação do Estado a enfrentar, de fato, essa situação. Por isso incomoda tanto.

A segunda razão que me leva a apoiar o sistema de cotas raciais é vinculado diretamente à nossa realidade política, cínica, nepotista e fisiológica. Caso consigam transformar a cota racial em cota “para pobres”, as transações eleitoreiras realizadas em torno dos bens públicos irão ganhar um novo componente. Porque, como se sabe, para fazer parte do sistema, é preciso se reconhecer como negro. É preciso dizer, na cara da autoridade: eu sou negro. Alguém consegue imaginar esses filhinhos de papai da caricata aristocracia nacional, mesmo os mulatinhos disfarçados, assumindo o papel de negro, formalmente? Nunca. Preferem a morte. Mas se a cota for para “pobres”, vai ter muito vagabundo botando roupa velha para se matricular. Basta fraudar o sistema burocrático e encher as faculdades públicas de falsos pobrezinhos. Ou de pobrezinhos de verdade, mas selecionados nas fileiras de cabos eleitorais. Ou pobrezinhos apadrinhados por reitores. Pobrezinhos brancos, de preferência.

Só um idiota não percebe a diferença entre ser pobre branco e pobre negro no Brasil. Ou como os negros são pressionados e adotam um discurso branco, assim que assumem melhores posições na escala social. Lembro do jogador Ronaldo, dito “Fenômeno”, ao comentar sobre as reações racistas das torcidas nos estádios europeus. Questionado sobre o tema, saiu-se com essa: “Eu, que sou branco, sofro com tamanha ignorância”. Fosse um perna-de-pau e tivesse que estudar, tenho dúvidas se essa seria a impressão que Ronaldo teria da própria cor, embora seja fácil compreender os fundamentos de tal raciocínio em um país onde o negro não se vê como elemento positivo, seja na televisão, seja na publicidade – muito menos nas universidades.

O fato é que somos um país cheio de racistas. Até eu, que sou branco, sou capaz de perceber."


Esse texto foi postado originalmente no blog de Leandro Fortes, Brasília, Eu Vi [aqui] e posteriormente reproduzido em diversos blogs, como o do Paulo Henrique Amorim [aqui], do Luiz Carlos Azenha [aqui] e do professor Marcelo Coelho [aqui] (esse último tem me servido de inspiração muitas vezes).



Palmas!

domingo, 9 de agosto de 2009

Gripe Suína - Operação Pandemia

Boa contribuição, de Julián Alterini - e mais do que na hora -, posto aqui um vídeo analisando o "real perigo" do vírus H1N1 - a Gripe Suína.

O vídeo é bem produzido, auto-explicativo, embora particulamente eu não goste muito da estratégia de argumentação que o autor utiliza. Ele tenta te convencer de que os números de casos fatais da gripe são inferiores aos das outras doenças sem repercursão, porém ele o faz
de forma absoluta e nunca revela os valores relativos, que são muito mais significativos. Além do mais, o enfoque que o caso está tendo pela própria mídia contribui para que menos pessoas se contaminem, devido às informações que dessa forma são veículadas - portanto, seu verdadeiro potencial destrutivo continua sendo uma icógnita.

O vídeo em geral é uma boa fonte de informação pra desmistificar toda essa
paranóia que se tornou a gripe suína e é claro, pra variar, as estreitas relações do último ex-presidente estadonidense republicano com a indústria farmacêutica é o pano de fundo do documentário.


Segue o vídeo cujo link no Youtube você tem [aqui], com o benefício de uma boa descrição sobre a produção e dados complementares.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A África Esquartejada

Vou continuar o blog postando um texto muito interessante do professor Marcio Masatoshi ao Folha de São Paulo [aqui]. Esse texto contribui pra discussão do papel da África no mundo globalizado.



"Quando olhamos para o mapa-múndi, notamos que o continente africano ocupa uma posição singular: atravessado pelo meridiano de Greenwich e pela linha do Equador, surge como o centro do mundo. Aparente berço da humanidade, a África, tal qual uma mãe, tem de purgar silenciosamente todos os desmandos do "Homo superior".

Fornecedora da mão-de-obra que enriqueceu a Europa, paradoxalmente foi esquartejada na Conferência de Berlim (1884-85): constituiu-se em 53 países separados por fronteiras artificiais, com incontáveis grupos etno-culturais que tiveram sua coexistência, nem sempre pacífica, e seus modos de vida destruídos em nome do progresso.

Não bastasse o quadro natural adverso (1/3 de áreas desérticas e em expansão e florestas impenetráveis), a África é vítima do seu passado: possui o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o maior IPH (Índice de Pobreza Humana) do mundo, ou seja, o menor PIB per capita, a menor taxa de urbanização, as maiores taxas de analfabetismo, de subnutrição, de natalidade, de mortalidade, de mortalidade infantil e de crescimento demográfico).

Além disso, convive com as doenças e a fome (na Somália, na Etiópia e no Sudão) e as guerras civis em Angola, Serra Leoa, Burundi, Ruanda e na República Democrática do Congo (ex-Zaire) e de fronteira (Chifre da África).

Sua economia, primário-exportadora, assegura o desenvolvimento, ainda que reduzido, de poucos países (Líbia, Egito, Marrocos, Tunísia, Zimbábue e África do Sul).

A maioria das nações vive da economia de subsistência, da plantation, quando não adoece ou passa fome.

Por ter mercado consumidor escasso, a África não pode participar do mundo globalizado, para o qual, não passa do lar de Tarzan e merece ser castigada, pois ousou sonhar com a liberdade após a "civilizada" 2ª Guerra Mundial. Seu lugar é apenas nos mapas.

Não bastasse isso, há duas décadas, a África da fome, das guerras e dos refugiados morre lentamente, vítima da AIDS. Mais de 23 milhões de casos numa população de 760 milhões de pessoas.

Nos 16 países em que mais de 10% da população está infectada (36% em Botsuana, 25% no Zimbábue e na Suazilândia, 20% na África do Sul e em Zâmbia), o HIV matará cerca de 80% dos adultos.

A malthusiana omissão mundial é tão inquietante quanto a cínica "solidariedaids". A sensação de que a humanidade é matricida é desoladora. Ainda mais quando os jogadores de futebol de Camarões nos dão um exemplo da infinita alegria que é o ato de viver."

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Movimento Pró-Democracia

Bem-vindos, caros leitores, ao Aglio e Óleo.

É de extrema satisfação poder ler finalmente o primeiro post do blog, o qual eu já havia projetado a tanto tempo. Não aguentava mais limitar as minhas modestas análises sobre o que acontece por aí às rodinhas de discussões universitárias. Não é que eu não goste delas – de fato, eu as adoro – mas há em mim uma sensação de improdutividade, que talvez eu consiga amenizar com a fundação do blog. É como se comigo houvesse alguma matéria prima, mas nunca estímulo para transformá-la em produto. Seria muita pretensão afirmar que tal produto esbanjaria qualidade, principalmente se tratando de um produto jornalístico, o qual o blog se propõe – embora com o caráter de opinião - e que eu não tenho competência acadêmica de executá-lo. Mas mesmo assim, arriscarei.

Para inaugurar o blog, voltarei um assunto já em baixa, que pode até soar um pouco ultrapassado. Não que o caso a seguir seja importantíssimo para a compreensão da sociedade, muito menos que os assuntos atuais não sejam merecedores de um post, mas é que esse caso tem uma especial importância dentro do contexto onde eu, Guilherme Aglio, estudante de Produção Cultural da UFF, estou inserido. Depois de algumas discussões in-campus sobre as eleições municipais do Rio, resolvi dissertar um pouquinho sobre o famigerado Movimento Pró-Democracia, que foi organizado através do Orkut e juntou cerca de 13 mil pessoas na internet, das quais três mil participaram das manifestações nas ruas.

A proposta inicial do movimento é “a aceleração do julgamento dos crimes eleitorais ocorridos” durante as eleições municipais cariocas. Oficialmente, o movimento aponta diversos crimes eleitorais, TODOS eles evolvendo o candidato vencedor Eduardo Paes (PMDB-RJ). Além de boca de urna, caixa 2 e uso da máquina pública, o MPD alega que falecidos tiveram votos computados, enquanto eleitores foram impedidos de votar. As denúncias estão no vídeo divulgado pelo movimento que você pode ver [aqui].

Tudo lindo e maravilhoso, o movimento arrastou uma galera – a grande maioria constituída de jovens (de classe média, importante citar) – da Cinelândia até o TRE, quase todos vestidos de preto com os rostos pintados em verde e amarelo, representando a morte da democracia no Brasil. Um show de organização, mobilização e divulgação. Baseado neles, inclusive, que passou pela minha cabeça conduzir o Movimento Contra a Propaganda Enganosa, mas faltou a disposição necessária com o Orkut e capacidade da Veja e da Globo em criar falsos mártires para o meu movimento. A primeira denúncia que o movimento faria seria justamente contra Movimento Pró-Democrático, que de democrático, meus amigos, nada tem.

Obviamente, se o movimento se tratasse de uma reação popular às irregularidades das eleições, tudo bem, nada contra, porém foi claramente um movimento de reação a não eleição de Fernando Gabeira (PV-RJ). A princípio, eu queria reiterar que o movimento foi conduzido justamente após uma eleição, em que o candidato dos que estavam ali protestando não foi eleito. Já começa a me parecer ofuscado a noção de democracia do MPD. Além do mais, esse candidato perdeu nas urnas, como se estivéssemos em uma sociedade democrática. Mas tudo bem, os organizadores afirmavam que, a princípio, não queriam a anulação das eleições, embora eu desconfie que esse “princípio” nunca existiu.

Roda inclusive, um vídeo na internet também divulgado pelo próprio movimento, que você pode ver [aqui], intitulado Movimento Pró-Democracia - Argumentos. O vídeo, como todos vocês leitores podem ter o privilégio de comprovar, ao invés de denunciar as práticas que, na ocasião das eleições do Rio, caminharam contra a democracia, se preocupou em fazer um ataque político somente a Eduardo Paes, demonstrando manobras de alianças, como quando Sérgio Cabral (PMDB-RJ) faz um discurso contra o presidente Lula e depois pede apoio para a candidatura de Eduardo Paes, como se isso significasse a falta da democracia. Aliança essa inclusive que dá asco a qualquer um e, até onde eu sei, mudar de idéia nunca foi anti-democrático. Esse namoro dos dois partidos rendeu até uma declaração de defesa de Lula para o indefensável Sarney, o que arrepia de verdade, mas não é por isso que vou deixar de votar na Dilma em 2010, até porque não acho que a oposição seja mais pura e imaculada. Além do mais, o vídeo nem sequer cita que o ex-candidato do PV é também um vira-casaca de carteirinha, já inclusive se elegendo pelo PT - configurando-se muito mais que uma simples manobra de aliança.

Claro que esse partidarismo travestido de Movimento Pró-Democrático se auto intitula "apartidário", mas alguém por aí acredita que se Fernando Gabeira tivesse ganhado as eleições, com ou sem irregularidade, haveria movimento? Aqui não. Esse é o segundo nome que o Movimento Contra a Propaganda Enganosa denunciaria: o de Fernando Gabeira, que recebeu o prêmio do O Globo "Faz a Diferença" e foi capa da revista Veja como o "Exemplo de Ética", principalmente por nunca ter aceitado indenização por conta da ditadura, embora a tenha usado no pedido de aposentadoria à comissão de anistia. Por que então o MPD também não protestou contra a utilização da cota de passagens aéreas que a Câmara fornece para enviar a filha Tami numa antidemocrática viagem aos Estados Unidos? Obviamente Gabeira teve que admitir e devolver os 6,5 mil reais à Câmara, mas nem houve protesto pró-democrático, infelizmente. De acordo com artigo de Maurício Dias publicado pela Carta Capital na edição de 27 de abril de 2008, e reiterado por Cynara Menezes na edição de 1º de junho de 2009, na declaração de gastos da campanha de 2006, o deputado do PV contratou ilegalmente a empresa de eventos pertencente a sua mulher no valor de 117 mil reais, nos quais apenas 5 mil eram pra produção de eventos, 55 mil para a "criação e inclusão de páginas na internet" e 52 mil para "diversas a especificar". Em nota, Dias afirma [aqui]: "A empresa de Neila não é do ramo da criação de sites e não se sabe igualmente do talento da atriz para esse negócio". A parte do “diversas a especificar” eu deixo para a imaginação dos leitores.

Tais acusações nunca nem sequer foram comentadas nos fóruns do Movimento Pró-Democrático, que você pode checar clicando [aqui].

E quase ia me esquecendo... ainda bem que ainda não li nada oficial do movimento sobre o suposto feriado antecipado, que alguns afirmam ter prejudicado as eleições. Anti-democrático nisso, apenas os "idiotinhas" que preferiram pegar uma "prainha" ao invés de exercer a democracia (como disse, em raro momento de lucidez, Arnaldo Jabour em declaração a CBN, que você pode ouvir [aqui]).

Democrático?